Pular para o conteúdo principal

TEXTO DRAMÁTICO

TODO MUNDO E NINGUÉM

(Auto da Lusitânia, de Gil Vicente)
(Adaptação de Carlos Drummond de Andrade)
(Readaptação: Lucínio Barbosa)
3 homens
(Entra Todo Mundo, homem como rico mercador (fumando um cachimbo, usando um chapéu, todo metido) e faz que anda buscando alguma coisa que ele perdeu. Logo em seguida encontra-se com um homem, vestido como pobre, este se chama Ninguém, e diz:)

NINGUÉM: O Senhor tá a fim de quê?

TODO MUNDO: A fim de coisas buscar/ que não consigo topar./ Mas não desisto,/ porque o cara tem de teimar.

NINGUÉM: E como é o teu nome, cavaleiro?

TODO MUNDO: Me diz o teu nome primeiro.

NINGUÉM: Pois não, meu senhor/ Já vou logo lhe falar/ Me chamo Ninguém/ e quero a consciência encontrar.

TODO MUNDO: Pois eu me chamo Todo Mundo/ e passo o dia e o ano inteiro/ correndo atrás de dinheiro/ seja limpo ou seja imundo.

(Belzebu, uma espécie de diabo, todo vestido de preto ou de vermelho, unhas pintadas de preto ou vermelho, sobrancelhas pintadas de preto e os olhos também pintados, sentado num local de destaque, como se estivesse presenciando invisivelmente a conversa entre Ninguém e Todo Mundo, segura um livro gigantesco, onde faz as anotações.)

BELZEBU: Vale a pena dar ciência/ e anotar isto bem,/ por ser fato verdadeiro/ que Ninguém quer consciência e Todo Mundo, dinheiro. (kkkkkkkkkkkk)

NINGUÉM: E que mais procura, hem?

TODO MUNDO: Procuro poder e glória.

NINGUÉM: Eu cá não vou nessa história,/ Só quero virtude...amém!

BELZEBU: Ainda bem que Todo Mundo não se ilude/ anoto logo aqui/ que busca o poder Todo Mundo/ e Ninguém busca Virtude.

NINGUÉM: E que mais, amigo meu?

TODO MUNDO: Minha ação elogiada/ em todo e qualquer sentido.

NINGUÉM: Prefiro ser repreendido/ quando der uma mancada.

BELZEBU: Aqui deixo por escrito/ o que querem lado a lado:/ Todo Mundo ser louvado/ e Ninguém levar um pito.

NINGUÉM: E o que deseja mais, sabido?

TODO MUNDO: Mais a vida. A vida, olé!

NINGUÉM: A vida? Não sei o que é./ A morte, conheço eu.

BELZEBU: Esta agora é muito forte/ e guardo para ser lida:/ Todo Mundo busca a vida/ e Ninguém conhece a morte.

TODO MUNDO: Também quero o paraíso,/ mas sem ter que me chatear.

NINGUÉM: E eu, suando pra pagar/ minhas faltas de juízo!

BELZEBU: Para que sirva de aviso,/ mais uma transa se escreve:/ Todo Mundo quer o Paraíso/ e Ninguém paga o que deve.

TODO MUNDO: Eu sou vidrado em tapear, e mentir nasceu comigo.

NINGUÉM: A verdade eu sempre digo/ sem nunca chantagear.

BELZEBU: Boto anúncio na cidade,/ deste troço curioso:/ Todo Mundo é mentiroso/ e Ninguém fala a verdade.

NINGUÉM: Que mais, bicho?

TODO MUNDO: Bajular.

NINGUÉM: Eu cá, não jogo confete.

BELZEBU: Três mais quatro igual a sete./ O programa sai do ar./ Lero lero, lero lero, curro paco, paco, paco, Todo Mundo é puxa-saco/ e Ninguém quer ser sincero!/ Fico eu só anotando,/ esse lindo ministério/ Ninguém faz o que é certo/ e Todo Mundo vai pro inferno. (kkkkkkkkkkk)

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

LITERATURA AFROBRASILUSA: TENTATIVA DE CONCEITO

Inicialmente, o texto nos faz refletir sobre a formação da Língua Portuguesa a partir de diversidades culturais e dominantes concebida por civilizações que colonizaram as terras da América do Sul, África e Ásia. Partindo dessa perspectiva e analisando a formação do povo brasileiro – ameríndios, africanos e lusitanos – é que nossa identidade cultural cristaliza-se a partir dessa heterogeneidade. Uma das questões mais debatidas na literatura contemporânea é a questão da identidade. Num mundo globalizado, em que se ameaça excluir as diferenças culturais entre os países, a afirmação das identidades nacionais se faz quase que obrigatória. Assim, a Língua Portuguesa que em momentos decisivos de nossa história foi instrumento de nossa própria identidade não pode desaparecer também de outras culturas que dela fizeram/fazem uso, pois a cultura consiste numa constante transfusão de resíduos. Foi assim com todos os povos que conhecemos, principalmente os portugueses, que somados aos romanos, ...

ANÁLISE CRÍTICA SOBRE VIDA E OBRA DE PATATIVA DO ASSARÉ - MÚSICA A TRISTE PARTIDA

Patativa do Assaré (Antonio Gonçalves da Silva), cantador do sertão nordestino, provindo de um meio muito modesto, encontrou na literatura popular um meio de imortalizar a vida do sertanejo, utilizando-se nos seus poemas de temáticas sociais tais como: desigualdade social, reforma agrária, ética, fé e religiosidade, o sofrimento e a resistência do sertanejo, o êxodo rural, dentre outras. Com uma expressividade oral única, sob uma aparente ingenuidade, Patativa conseguiu, em seus poemas, mexer com o sentimentalismo dos leitores, expressando uma profunda experiência da vida quotidiana. O que toca o leitor não é a linguagem de caráter popular “de quem não sabe”, mas o sofrimento de saber o que é ter fome ou dor, tristeza ou felicidade, mágoa ou prazer. Essa dicotomia entre o bem e o mal é restituída no contexto sertanejo da obra patativiana, que testemunha um modo de vida, reivindica valores próprios e elabora a identidade verdadeira, autêntica e legítima do sertão. Pode-se analisar al...