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ENSINAR OU NÃO GRAMÁTICA?


Diante de tal questionamento, cabe-nos refletir sobre como a gramática deve ser ensinada na escola, pois não é concebível um conhecimento lingüístico sem um conhecimento padrão. Portanto, o ensino-aprendizagem da gramática deve objetivar o melhoramento da capacidade de compreensão e expressão do falante, tanto nas situações de comunicação oral quanto nas de comunicação escrita, e não só o estabelecimento de regras lingüísticas sem considerar as variações sócio-culturais do aprendente.

A aprendizagem de conteúdos gramaticais melhora a produção de textos, o monitoramento da escrita pelo próprio estudante e assegura sua correção, adequação, coerência e coesão.

Os conhecimentos linguísticos devem ser ensinados visando a levar o aluno a entender o funcionamento da língua como um sistema de estruturas, expandindo assim sua possibilidade de uso da linguagem e a capacidade de análise crítica. Para isso, devemos tomar como ponto de partida os conhecimentos prévios do aluno, ou seja, o uso que ele já faz da língua, para ensinar-lhe aqueles que ele ainda desconhece.

Cabe ao professor eliminar a dicotomia correto/incorreto do seu vocabulário e buscar contextualizar os aspectos gramaticais, interagindo com a linguagem já adquirida pelos falantes e àquela que se deseja adquirir. A tolerância e o respeito ao padrão lingüístico de seus alunos faz-se indispensável, pois atitudes discriminatórias podem causar prejuízos psicológicos aos alunos.

O problema é que ainda se trabalha uma gramática dissociada do contexto, com análises isoladas de frases que não fazem sentido para o aluno. O professor precisa inovar nas suas abordagens metodológicas e conceituais, para que a língua não seja ensinada como “um bicho de sete-cabeças”, mas como algo flexível que se adapta ao diversos contextos sócio-comunicativos. O papel do professor deve ser o de mediador do conhecimento, aquele que questiona o aluno, que o faz refletir, que analisa e guia o aprendente na formulação de novos conceitos.

Enfim, como bem diz Irandé Antunes (2005), “A solução, portanto, não é deixar de ensinar gramática; é, ao contrário, ensinar muito mais que gramática”, e completa: “ninguém fala, ouve, lê ou escreve sem gramática, é claro; mas a gramática sozinha é imensamente insuficiente”.

Lucínio Barbosa

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